A última estação do medo Amadeu despertava antes da aurora, quando o mundo ainda era silêncio e penumbra. Na mesinha de cabeceira, os aparelhos o aguardavam como sentinelas fiéis. O tensiômetro envolvia-lhe o braço com um abraço contido; o oxímetro, pequena...
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A última estação do medo Amadeu despertava antes da aurora, quando o mundo ainda era silêncio e penumbra. Na mesinha de cabeceira, os aparelhos o aguardavam como sentinelas fiéis. O tensiômetro envolvia-lhe o braço com um abraço contido; o oxímetro, pequena joia fria, pousava na ponta do dedo como quem pede licença; o termômetro, sob a língua, tinha o gosto metálico da vigília. Os números surgiam na escuridão — algarismos vermelhos que piscavam como vaga-lumes — e Amadeu os recolhia com a delicadeza de quem colhe flores frágeis. Depois, a caneta corria sobre o caderninho de capa preta, e cada anotação era uma prece silenciosa contra o tempo. A saúde tornara-se o seu templo, e ele, o seu mais devoto sacerdote. O mundo, visto através de seus olhos, era uma paisagem de ameaças quase poéticas: bactérias dançando nas maçanetas, vírus flutuando no ar como plumas invisíveis. Amadeu atravessava os dias com a atenção de quem caminha sobre um fio. Escolhia os restaurantes como quem escolhe um al
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